Portugal fazia parte de uma zona temperada da Península Ibérica, voltado para o oceano Atlântico, pelo qual viajou em lanchas e caravelas, entre lendas e achamentos deslumbrantes, deuses do mar e da terra, novos continentes, novas gentes, coisas e produções que quase souberam negociar bem, durante séculos, deixando que outros roubassem o produto e a sua notícia.
Este Portugal perdeu a monarquia, tentou abrir-se à modernidade do tempo, sobretudo no século XX, no fim de contas capturado pela ditadura e por uma guerra colonial onde o império imaginado se desfez em pouco mais de doze anos, as almas sombrias, a revolução de 25 de Abril de 74 procurando reinventar a portugalidade, provisoriamente as em plena constitucionalidade.
Tudo aconteceu com retornos e fugas, entre novas emigrações, enquanto o fogo emergia dos conflitos, dos ajustamentos, dos negócios enviesados, da própria aventura de adesão à União Europeia, regras e austeridades, uma ilusória união de gentes cada vez mais vis e egoistas, mal sabendo o que fazer com as massas de emigrantes religiosamente selvagens, da Síria, de zonas pobres e de vários países africanos, descolonizados e arrasados por ditadores impensáveis.
E enfim, de novo entre nós, a tradição do fogo rebentou outra vez com a violência dos deuses e dos seus serventes, doentes de pegar fogo, Tudo tem ardido numa floresta dita desarrumada, aliás como as nossas grades cidades, impensáveis e demenciais. Não é assim que se ordena o território e a vida, quer com este tipo de cidades, quer com os abandonos da interioridade, florestas de quase desabitadas de aldeias e de gente idosa, até às casas vazias e ao fogo politizado pela incúria
Rocha de Sousa
